quarenta graus de frio

Por Portal Opinião Pública 27/08/2026 - 15:50 hs
Foto: Divulgação

por enrico pierro

lá fora fazia um dia de sol de encher os olhos, desses que o interior capricha, e eu estava dentro de casa de casaco. casaco de verdade, com zíper e capuz. os quatro cachorros, esparramados no quintal torrando ao sol, me olhavam pela porta de vidro com uma expressão que eu conheço bem: não era pena, era julgamento. quatro juízes de barriga pra cima, avaliando o dono friorento que trata vinte e dois graus como frente fria polar. eu ajeitei o capuz e fui fazer um chá, porque dignidade a gente mantém como pode.

ser friorento crônico exige infraestrutura. tenho uma coleção de mantas com hierarquia definida, meia dentro de casa em pleno janeiro e a habilidade de detectar correntes de ar que nenhum instrumento meteorológico registra. meu corpo funciona numa escala térmica particular em que o resto do mundo vive sempre uns dez graus acima de mim.

o capítulo mais delicado é a negociação do casamento. o john é uma fornalha humana: dorme de janela aberta e reclama de calor em julho. eu, do meu lado da cama, monto acampamento. já assinamos tratados sobre janela, ventilador e acordos de inverno. no meio dessa diplomacia existe a lareira, que é a minha religião pessoal. o john diz que fico olhando para o fogo como quem reza. ele não está errado.

mas outro dia, sentado diante do fogo, pensei que existe gente que sente frio de outra natureza. frio da vida. gente agasalhada por fora e congelando por dentro, procurando calor numa conversa, numa fé, numa mesa ou num abraço.

o friorento da pele todo mundo identifica pelo casaco. o friorento da alma disfarça melhor. e às vezes é a pessoa mais solar da sala.

se você também é friorento, da pele ou da vida, aqui em casa tem lugar perto da lareira. a manta oficial não empresto, tenho limites. mas a reserva é sua. o fogo dá pra dividir. calor, no fim das contas, é das poucas coisas que aumentam quando a gente reparte.

@enricopierroofc